terça-feira, 10 de abril de 2012

Num cabaré da Lapa

por Brás Cubas Jr

Samba abaianado da mineira de Madureira. Encontrei na Lapa a caminho de Lisboa, ainda que longe de Santos-o-Velho, num bar de preços sim europeus e samba do bom, por supuesto trivial ali pela Mem de Sá.
Ocupando o centro do salão, Marcela e sua trupe de gordinhos desinibidos. Metade das criaturas, homens gordinhos, gays e incapazes de segurar um partido alto na palminha da mão. Elas, só gordinhas e feias mesmo. Tinham por hábito ser um grupo de casais, cada fim de semana num arranjo diferente, numa farsa  bem alinhavada por uma alegria genuína e beijos convincentes.
Marcela, alta para uma mulher, gorda como nenhuma de suas amigas - minto; só agora noto aquela enrolada em pano preto florido - e muito desenvolta, assistida e inspirada por seu grupo que num golpe feliz coagiu a banda a tocar Clara Nunes, agarrou o microfone e cantou hinos de Madureira. Passeou por Portela e o Império de seu coração. Neste momento, sua monstruosidade era artística desde sempre.
E nesse antro de gente feia e boa música, existe num canto alguém ainda mais feia. Dançava bonito, feia que era, magra como não devia, rosto de homem em corpo de menina nem bem moça. A graça que não tinha lhe vinha do samba e a abençoava - sim, quando sambava havia graça em seus gestos.
A extravagante feiúra de Marcela era enfeitada por dois laços. O primeiro era cor de rosa, estampado no ombro do vestido. Diria-se brega. O outro enfeite era negra, de nome Alyne.
Uma gracinha era Alyne. Para descrevê-la, poderia falar de sua pele negra, de seu vestidinho preto que delineava um corpo de moça mas brasileira sem dúvida, suas sandálias pretas que mil vezes laçavam seus pés de moça, de suas mãos de gestos enfáticos e suburbanos, do gesto de seus braços enquanto sambava como que sobre nuvens, mas com uma agilidade de quadris que.. ai, Alyne! Poderia falar de seu nariz arrebitado, seus olhos doces, da pele rude, do sorriso que não me deu. Mas nada a descreve mais essencialmente que meu suspiro. Ai, Alyne. Quem me dera tivesses sorrido.

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